Skip to main content

A indesejada das gentes

Já nos perguntamos, alguma vez, o que faríamos, se, repentinamente, uma doença cruel nos abraçasse e fosse decretada nossa sentença de morte?

Ou, se em plena atividade, a morte chegasse e nos arrebatasse?

A proximidade da morte já levou muitas mentes privilegiadas a refletir sobre a vida. Alguns transformaram essa reflexão em palavras.

O neurologista e escritor inglês Oliver Sacks, com câncer de fígado, aos oitenta e um anos, escreveu, em fevereiro de 2015, no jornal americano The New York Times:

Sinto-me intensamente vivo, e quero e espero, no tempo que resta, aprofundar minhas amizades, dizer adeus aos que amo, escrever mais, viajar. Se eu tiver forças, alcançar novos níveis de compreensão e entendimento.

Professor de neurologia e psiquiatria, estudioso de temas como percepção e consciência, escreveu ainda: Acima de tudo, fui um ser consciente, neste belo planeta, e só isso já foi um enorme privilégio e uma aventura.

Em sua carta-despedida confessou: Não posso fingir que não tenho medo, mas meu sentimento predominante é a gratidão.

Amei e fui amado, recebi muito e dei algo em troca, li, viajei, pensei, escrevi.

Pouco mais de seis meses depois, em agosto daquele ano, ele desencarnou.

Por sua vez, o escritor, educador, teólogo e psicanalista Rubem Alves, que morreu no ano de 2014, deixou uma carta para ser lida, em sua cerimônia fúnebre.

Escrita nove anos antes, além de reflexões sobre a terminalidade da vida, havia instruções para quando sua hora chegasse, como a declamação de poemas de autores que cantavam a morte.

Escreveu ele: Não tenho medo da morte, embora tenha medo de morrer.

O morrer pode ser doloroso e humilhante, mas para a morte tenho uma pergunta: Voltarei para o lugar onde estive sempre, antes de nascer, antes do Big Bang?

Durante esses bilhões de anos, não sofri e não fiquei aflito para que o tempo passasse.

Voltarei para lá até nascer de novo.

Adeus à vida sob o sentimento de gratidão, da revista Iátrico, nº 36, de agosto de 2017, ed. do Conselho Regional de Medicina do Estado doParaná,

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.