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Vida inteligente no Universo


Eu não creio no Deus que os homens fizeram, mas creio no Deus que fez os
homens”. (Alphonse Karr)

O tema do aparecimento da vida, da sua evolução e da sua possível
distribuição no Universo tem sido um dos mais controversos quer no campo
científico quer religioso.

Abrangendo áreas tão diversas como a biologia, a química, a física, a
astronomia, etc., este tema deveria ser abordado por todos com a necessária
dose humildade para reconhecer que nunca se pode abranger todas as áreas do
conhecimento e que cada vez se torna mais difícil dominar a diversidade das
matérias mesmo numa só área. Acresce que a própria ciência tem constatado ao
longo dos séculos que o conhecimento não pode ser algo estabelecido e que os
paradigmas de hoje poderão não servir amanhã. Sobretudo, a ciência tem
demonstrado que o preconceito é o maior inimigo do conhecimento. Esta
demonstração da dinâmica do conhecimento, e as suas implicações filosóficas,
tem sido um dos maiores serviços que a ciência tem prestado à Humanidade.
Por outro lado, a ciência é um dos pilares do espiritismo. Por estas razões,
parece-nos importante começar a abordagem deste tema baseando-nos, dentro
das nossas limitações, no estado atual do conhecimento nalgumas áreas da
ciência, deixando para o final os comentários que o tema nos merece.

Alguns conceitos e constantes

Velocidade da luz – a velocidade da luz no vazio é de aproximadamente 300
mil km/s e é postulada pela teoria de relatividade especial (Einstein) como
a velocidade máxima possível no Universo, isto é, nenhum sinal, energético
ou material poderá, segundo a teoria, propagar-se no espaço a uma velocidade
superior à daquela constante(2).

Distâncias – face à enormidade das distâncias com que se trabalha em
astronomia e cosmologia, estas ciências adaptaram novas unidades para as
medir; as mais utilizadas são: Unidade Astronômica – corresponde à distância
média da Terra ao Sol e equivale a 149.600.000 km.

Ano-luz – corresponde à distância percorrida durante um ano à velocidade da
luz e é aproximadamente igual a 9.460.000.000.000 km.

Galáxias – as galáxias são aglomerados de estrelas e, conseqüentemente, de
sistemas solares e seus planetas. As galáxias representam possivelmente a
unidade arquitetônica básica da estrutura organizativa do Universo. As
galáxias são usualmente classificadas de acordo com a sua forma em espirais
(como a nossa Via Láctea), elípticas e irregulares.

Estrelas e planetas – As estrelas caracterizam-se essencialmente por
possuírem luz própria, enquanto os planetas não têm tal luminosidade. Para
além disso, algumas características como a massa (peso) e as dimensões
destes corpos são vulgarmente usadas para os distinguir. Estrelas
simples/múltiplas: o nosso Sol é uma estrela simples – ela é a única a
exercer influência na sua esfera de ação gravitacional, nomeadamente no
nosso sistema solar. No entanto existem imensos sistemas de sóis duplos,
triplos, quádruplos, em que essas estrelas se orbitam mutuamente umas às
outras.

Constelações – são agrupamentos das estrelas convencionados pelos povos da
Antiguidade, com base nas posições relativas dos astros visíveis a olho-nu,
o que permitia a esses povos identificá-las mais facilmente no céu. Assim
temos constelações com nomes de animais, de heróis e outras figuras
lendárias (18) (ex.: Ursa, Escorpião, Pégaso, Virgem, etc.). O nosso lugar
no Universo(3): embora seja impossível no nosso atual estado do conhecimento
pensar em estabelecer a nossa posição absoluta (se é que tal existe) no
Cosmos, podemos no entanto situar-nos relativamente a sistemas mais simples.
Assim, a Terra é um dos planetas do nosso Sistema Solar, girando em torno de
uma estrela de grandeza média denominada Sol. Por sua vez esta estrela
central do nosso sistema é uma dos muitos milhões (400 mil milhões) de
estrelas que povoam a galáxia a que pertencemos, designada Via Láctea.

Algumas distâncias do nosso planeta a outros objetos celestes: à estrela
Sírio (no Cão Maior): 8,7 anos-luz; à estrela Polar (na Ursa Menor): 680
anos-luz; à galáxia de Andrómeda: 500 milhões de anos-luz! Universo
observável: atualmente é possível observar da Terra mil milhões de galáxias.

Origem e evolução do Universo

O modelo atualmente mais aceite pela ciência (mas não o único) para a origem
do Universo assenta num fenômeno designado por Big-bang (Grande Explosão).
De acordo com este modelo, tudo (o nosso espaço-tempo) teria começado numa
singularidade que concentraria, com uma densidade extraordinariamente
elevada, toda a massa atual do Universo – ao explodir essa singularidade
daria origem à matéria e energia do Universo atual, que desde então ainda
não parou de se expandir. Esta teoria tem vindo a ser suportada por muitas
das observações astronômicas, entre as quais se encontra a detecção da
existência de uma radiação de fundo (de micro-ondas) que parece banhar todo
o Universo.

À luz desta teoria tem-se tentado explicar não só a origem, mas também a
estrutura atual e a evolução do Universo, tentando prever também o seu
futuro, i.e., derivou-se uma cosmologia a partir do modelo do Big-bang. Uma
das suas conseqüências é que o Universo teve um início catastrófico e
provavelmente terá um fim.

Embora esta cosmologia seja a que mais adeptos tem granjeado, alguns
astrofísicos adotam posições alternativas e têm vindo a apresentar
argumentos de peso em desfavor da teoria do Big-bang(6). Uma destas posições
corresponde à cosmologia do Plasma, segundo a qual não há início nem fim (no
tempo) para o Universo.

Recentemente, uma nova Cosmologia tem vindo a ser divulgada. Trata-se de uma
tentativa de unificar a mecânica quântica (que é aplicada no estudo das
partículas subatômicas) com a cosmologia baseada na relatividade geral de
Einstein (que é uma teoria da gravidade). Esta nova ciência tem tido a
adesão de físicos como Stephen Hawking e o prêmio Nobel Murray Gall-Mann.

O mais interessante desta nova abordagem da cosmologia é que os novos
modelos para a origem do Universo estabelecem que não teria surgido um
Universo, mas sim um Multiverso, ou seja uma multidão de Universos (17). O
nosso Universo não seria mais do que uma bolha quântica num oceano infinito
de universos paralelos. Nesta visão, os big-bangs ocorrem a todo o momento,
e o vácuo está constantemente a gerar novos universos. Como se isto não
fosse suficientemente surpreendente, físicos como Stephen Hawking visualizam
o nosso universo como estando ligado a todos os outros através de uma teia
infinitamente vasta de ligações constituídas pelos túneis no espaço
conhecidos por wormholes (buracos de verme).

Planetas versus estrelas

Os planetas são, no entender da maioria dos cientistas, o berço da vida.
Esta consideração prende-se com as condições ambientais que os planetas
podem oferecer, já que corpos como as estrelas produzem uma tal quantidade
de energia que inviabiliza a formação de compostos estáveis e será
impensável encontrar matéria orgânica numa estrela. Da mesma forma, corpos
mais pequenos como asteróides ou cometas não disporiam das condições
necessárias de estabilidade para assegurar a presença de vida. Parece-nos
que mesmo de um ponto de vista científico, esta visão da vida é fortemente
antropocêntrica e que a discussão do tema centrada nestas idéias deveria ter
um título menos genérico. De qualquer forma alguns autores como Carl Sagan
sugeriram já formas de vida alternativas muito exóticas, que poderiam
habitar planetas para nós tão inóspitos como Vênus ou Júpiter.

O modelo mais aceite para a formação de planetas consiste na condensação da
matéria que em forma de poeira órbita ainda a maior parte das estrelas após
a sua formação. A condensação irregular desta poeira dará origem a pequenos
corpos, que por sua vez, através da atração gravítica, irão incorporando
mais matéria, até formarem corpos individualizados de grandes dimensões como
os planetas. Este processo levaria cerca de 10 milhões de anos a consumar-se
esgotando a nuvem de poeira.

Calcula-se que atualmente 60 por cento das estrelas jovens apresentem discos
de poeira em redor de si. Esta estimativa aponta portanto para uma
probabilidade relativamente elevada de existência de sistemas planetários
orbitando grande parte das estrelas. A pesquisa de planetas noutros sistemas
solares é, no entanto extremamente difícil, e para já não é possível de
forma direta, i.e., não existem meios atualmente para observar planetas fora
do nosso sistema solar; a sua detecção é feita de forma indireta, através
das perturbações que os planetas provocam nas órbitas das estrelas que
circundam, bem como na luminosidade observável dessas estrelas. Muito
recentemente, considerava-se que seriam necessários 20 a 30 anos de
investigação para detectar um planeta com a massa de Saturno noutro sistema
solar. Considerava-se também que apenas estrelas simples permitiriam a
formação de discos de poeira de onde poderiam originar-se planetas. Para
além disso, apenas estrelas bem comportadas (estáveis) como o nosso Sol
permitiriam a coexistência de sistemas planetários. Como se estima que
apenas 20 a 40 por cento das estrelas do tipo do Sol serão estrelas simples,
aquele fator condicionaria muito a possibilidade de formação de planetas
semelhantes ao nosso. Assumia-se também que para além de uma certa massa
crítica (aproximadamente a massa do planeta Júpiter), não se poderia formar
um planeta – estaríamos em presença da gênese de uma estrela. No entanto,
diversas descobertas recentes demonstraram a falibilidade de algumas destas
considerações. Entre as novidades mais recentes conta-se a detecção de dois
planetas com as dimensões da Terra orbitando uma pulsar(7) (uma estrela na
fase final do seu colapso, que roda a velocidades vertiginosas, emitindo
feixes de energia periódicos, como um farol no espaço), a descoberta de
planetas orbitando sistemas estelares múltiplos e a descoberta de novos
planetas com massas iguais e superiores à de Júpiter(19). Para além disso, a
técnica de detecção de planetas tem evoluído muito rapidamente nos últimos
anos, tendo-se detectado planetas bastante exóticos e em condições bastante
inesperadas. Parece, pois, poder concluir-se que a probabilidade de
existência de planetas em torno das estrelas será bastante superior ao que
se vinha estimando.

A estrutura do Universo

Os astrônomos já há muito que concluíram que o nosso Universo não é apenas
um mar de estrelas e seus planetas dispersos pelo espaço. Pelo contrário,
apresenta uma estrutura bem evidente, a diversos níveis. Assim, as estrelas
encontram-se agrupadas em galáxias, as galáxias constituem grupos de ordem
mais elevada designados enxames (clusters), e estes por sua vez formam
super-enxames, presumindo-se que estes representem a hierarquia máxima dos
sistemas ligados por forças gravitacionais. O enxame ao qual pertence a
nossa galáxia é denominado Grupo Local e por sua vez faz parte do
super-enxame da Virgem. Num mapa do Universo recentemente elaborado por
investigadores do Harvard-Smithsonian Center of Astrophysics, revela-se a
estrutura dos grandes grupos, circundados por grandes espaços vazios(12).
Este tipo de estrutura é um dos grandes mistérios da cosmologia atual, uma
vez que, partindo de uma origem explosiva como o Big-bang, seria mais
razoável esperar que a matéria estivesse uniformemente distribuída pelo
Universo. Existe um princípio fundamental na Física (mais concretamente o
segundo princípio da termodinâmica) que postula que num sistema deixado
entregue a si próprio a entropia tende a aumentar, a desordem tende a ser
máxima; isto é precisamente o contrário do que observamos no nosso Universo.

Criação-destruição contínua material

Tal como já foi atrás referido, a propósito da cosmologia quântica,
aceita-se que nova matéria esteja constantemente a ser gerada do “nada”.

De forma semelhante, supõe-se que determinados objetos cósmicos como os
quasares e os buracos-negros sejam verdadeiros devoradores de matéria. Os
quasares geram quantidades tão grandes de energia que hoje em dia a única
explicação para tal é a de que aqueles objetos gigantes estejam a devorar e
esmagar galáxias inteiras, emitindo a energia que está associada a tais
processos.

Por seu lado, os buracos-negros serão singularidades espaciais que
concentram matéria num estado de densidade tão elevado que nada, nem mesmo a
luz, consegue escapar ao seu campo gravitacional, tornando-os desta forma
invisíveis. Este corpos têm assim a capacidade de atrair e devorar
irremediavelmente tudo (estrelas incluídas) o que possa cair na sua esfera
de influencia. Supõe-se existir um desses buracos-negros no centro da nossa
galáxia, para além de outros já terem sido detectados de forma indireta.

Planetas-urbe

Desde há muito que a hipótese de existirem outros planetas habitados para
além do nosso tem vindo a ser colocada, sobretudo nos meios científicos. De
fato, atentando na grandeza do Universo de que temos estado a falar, deixou
de fazer sentido pensar que a Terra poderia ser um caso especial como único
planeta votado ao aparecimento de vida. Como veremos mais à frente, o número
de corpos celestes observáveis é tão grande que o número de planetas que se
calcula existirem no Universo deve ser suficiente para, com base em cálculos
probabilísticos simples, podermos asseverar que deve existir vida semelhante
à nossa em muitos outros sistemas planetários.

A origem da vida na Terra

A história da origem da vida na Terra tem sido apresentada nas últimas
dezenas de anos com base no modelo que Urey e Miller derivaram nos anos 50
das suas experiências com alguns dos presumíveis elementos constituintes do
habitat terrestre há cerca 3500 milhões de anos: a água, a amônia e o metano
entre outros, e a energia associada aos raios ultravioleta e às descargas
elétricas na atmosfera (relâmpagos). Segundo este modelo, a vida teria
surgido espontaneamente, com base naqueles ingredientes, na Terra primitiva.
Este modelo foi de tal forma aceite pela generalidade da comunidade
científica que ainda hoje é aquilo que se ensina aos jovens nas escolas,
quase como uma verdade absoluta. No entanto, não só não é o único modelo
existente, como nem sequer é universalmente aceite pela comunidade
científica. Na realidade, a implantação deste paradigma é mais um exemplo de
como, em ciência, muitas vezes se acaba por aceitar aquilo que em dado
momento é útil aceitar. Robert Shapiro, um bioquímico, professor na
Universidade de Nova Iorque, no seu cativante livro “Origens…” aborda o
tema da origem espontânea da vida referindo os estudos que alguns teóricos
efetuaram, aplicando o cálculo de probabilidades. Assim, Hoyle e
Wickramasinghe, dois cientistas que inicialmente subscreveram a hipótese da
geração espontânea, calcularam a probabilidade de que se formasse
espontaneamente não uma bactéria, mas apenas o conjunto das enzimas que a
integram: a probabilidade de isto acontecer seria 1 em 1.040.000 (1 seguido
de 40 mil zeros) que os autores compararam à de que «um tornado atingisse
uma lixeira e montasse um Boeing 747 a partir dos materiais aí depositados».
Como se estes cálculos não bastassem, um físico da Universidade de Yale,
Harold Morowitz efetuou cálculos mais rigorosos e obteve a probabilidade
inimaginável de 1 em 10.100.000.000.000, um valor tão esmagadoramente baixo,
que o tempo necessário para a tornar viável é infinitamente maior do que a
duração previsível do nosso Universo.

Afigura-se compreensível, portanto que os especialistas tentem encontrar
alternativas para aquele modelo.

Entre outras hipóteses alternativas coloca-se hoje a da origem cósmica da
vida na Terra. Assim, a Terra teria sido “contaminada” com matéria orgânica
trazida por corpos celestes tais como meteoritos que bombardearam
intensamente o nosso planeta até há cerca de 3500 milhões de anos,
precisamente a idade que se estima para a vida na Terra. Esta hipótese é
tanto mais verossímil quanto mais se sabe hoje que o nosso planeta continua
a receber partículas de pó interplanetário que contribuem com cerca de 300
toneladas de matéria orgânica por ano. O problema com a hipótese da origem
cósmica da vida na Terra é que esta não faz mais do que adiar a questão –
temos sempre que colocar a pergunta: mas então como se formou a vida no
local de onde proveio? A questão continua em aberto.

Os problemas que poderão obstar à existência de vida num planeta não têm a
ver apenas com a dificuldade da sua origem, mas também com a sua
sobrevivência nesse planeta.

Um dos fatores determinantes é a existência de uma atmosfera em redor do
planeta. Esta tem a dupla função de suportar os fenômenos respiratórios dos
seres vivos, mas também o de travar os objetos celestes que se despenham
sobre o planeta, pondo em causa a sobrevivência dos seres.

Planetas habitados: quantos?

Outro fator a ter em conta é a intensidade da chuva de meteoritos,
asteróides e cometas a que um planeta pode estar sujeito. Estima-se que a
Terra tenha sido durante milhões de anos bombardeada por estes corpos, de
tal forma que mesmo que a vida emergisse nalgum local do planeta, as
probabilidades de ela subsistir seriam muito reduzidas. Por fim há que ter
em conta um outro fator que até há bem pouco tempo era uma preocupação
fundamental da Humanidade e que muitos pensadores ponderavam se seria uma
vocação das sociedades tecnologicamente avançadas: a autodestruição.

Tendo em conta alguns destes fatores, Frank Drake, presidente do Instituto
de Pesquisa de Vida Extraterrestre (SETI), estabeleceu uma equação que
estima o número (N) de civilizações tecnológicas detectáveis no universo: N
= R * fp * ne * fl * fi * fc * L

O significado dos parâmetros desta equação é descrito no final deste artigo,
para que o leitor possa fazer os seus cálculos. De acordo com tal fórmula,
resolvemos fazer um cálculo, usando alguns números que não são os mais
otimistas:

a=Idade do Universo: 15.000 milhões de anos

b=Nº de Galáxias: 100.000 milhões

c=Nº médio de estrelas por galáxia: 300.000 milhões

d=b x c: total de estrelas do Universo: 30.000.000.000.000.000 milhões

arbitrando fp = 10%, ne = 0.1%, fl = fi = fc = 1% (probabilidades não muito
otimistas) para os parâmetros da equação de Drake e L=100 anos (uma
estimativa pessimista para a duração de uma sociedade tecnologicamente
avançada), calculando R = d/a, obtém-se o valor de N= 20.000 planetas.

Resumindo, com base em números pessimistas, e nos nossos conhecimentos
atuais, seria de esperar que o número de planetas habitados semelhantes ao
nosso fosse da ordem das dezenas de milhar, só na parte do Universo por nós
conhecido!

Note-se que este cálculo diz respeito apenas a civilizações com tecnologia
avançada (segundo os nossos prismas), com capacidade de usar sinais
inteligentes para comunicar no Espaço. Na realidade, o número de
civilizações” poderá ser muito maior, e o número de planetas habitados (mas
sem sociedades organizadas) poderá ser muitíssimo superior, tendo em conta
as probabilidades.

Se os números parecem ser tão otimistas, por que não detectam os
pesquisadores outras civilizações no Espaço? Que pesquisas estão a ser
feitas?

Pesquisas de vida extraterrestre

A Agência Espacial Norte-Americana (NASA) suporta já há longos anos um
programa de pesquisa de inteligência extraterrestre (o programa SETI) que
atualmente foca a vizinhança de mil estrelas do tipo do Sol (usando 28
milhões de canais de radiotelescópio) para tentar detectar sinais de
civilizações com um grau de evolução tecnológico equiparado ou superior ao
nosso.

A Sociedade Planetária (sediada nos Estados Unidos) tem suportado projetos
de pesquisa baseados nos mesmos princípios tecnológicos, embora pesquisando
diferentes zonas do Espaço. Atualmente, esta sociedade implementou um dos
mais ambiciosos e caros projetos nesta área, utilizando centenas de milhões
de canais de radiotelescópio em simultâneo na sua tentativa de detecção de
sinais inteligentes.

Para além disso, lembramos que todas as missões de sondas espaciais enviadas
a outros planetas do nosso Sistema Solar (Lua e Marte sobretudo) fazem
recolha de amostras bioquímicas, tendo como um dos objetivos a pesquisa de
vida ou pelo menos de matéria orgânica na superfície desses planetas.

Não se pode dizer, portanto, que no nosso século a ciência e a tecnologia
tenham descurado a pesquisa de vida fora da Terra.

Quanto aos resultados, eles são bem menos animadores: a matéria orgânica tem
sido detectada em corpos celestes como meteoritos e asteróides, mas não mais
do que isso. Quanto à pesquisa de sinais de rádio no Espaço, alguns sinais
intrigantes têm sido detectados, mas sem se poder concluir que se trata de
mensagens com conteúdo inteligente.

A realidade deste tipo de pesquisa é que ela é bastante exigente em termos
de recursos tecnológicos e as probabilidades de se conseguir receber sinais
são baixas, uma vez que os radiotelescópios são geralmente apontados a uma
pequena faixa do firmamento. Estas áreas do universo são selecionadas para
pesquisa com base no conhecimento dos astrônomos em relação à presença de
estrelas com possíveis sistemas planetários — trata-se na realidade de um
jogo probabilístico. Cobrir toda a esfera celeste neste tipo de missão seria
impraticável.

Visitantes de outros planetas?

Se o tema da existência de extraterrestres tem dado lugar a aceso debate,
mais candente ainda é a questão do seu aparecimento na Terra vulgarmente
conhecida pela designação de fenômeno OVNI. Não se pode tentar sustentar uma
posição relativa a este assunto sem conhecimentos empíricos. Mas, a menos
que uma posição preconceituosa nos leve à partida a negá-lo, pode abordar-se
a questão da possibilidade do fenômeno, sob um ponto de vista teórico.

Uma das questões que se coloca quando se fala de viajantes interestelares é
a incomensurabilidade das distâncias a percorrer, relativamente à duração da
vida de um ser do tipo humano. Ora a teoria da relatividade restrita veio já
há alguns anos dar uma achega à questão, demonstrando que o tempo não passa
da mesma forma para observadores em repouso e para observadores em movimento
— concretamente, tal como foi já provado experimentalmente, o tempo passa
mais lentamente para os observadores em movimento.

Assim, para um ser a viajar a uma velocidade próxima da luz, o tempo
passaria muito lentamente e dar-lhe-ia a possibilidade de viajar enormes
distâncias no Espaço, no tempo correspondente à duração da sua vida.

Exemplificando, para um viajante numa nave espacial, a 99,999% da velocidade
da luz, o tempo passaria 224 vezes mais lentamente do que para um irmão seu
que tivesse ficado na Terra. Em 10 anos, o viajante percorreria 2239,98
anos-luz; na Terra teriam passado 2240 anos, enquanto para ele teriam
passado apenas 10 anos! Como efeito colateral, o nosso astronauta teria
viajado não só no espaço, mas também no tempo.

É claro que viajar à velocidade da luz, ou próximo disso, é um feito
tecnologicamente inalcançável para a nossa civilização atual. Mas não
podemos estabelecer limites aonde nos poderá levar o progresso, se nos for
dado o tempo suficiente.

Mais recentemente, outras descobertas da física-matemática vieram
reequacionar as possibilidades de viajar no espaço-tempo(21). Derivadas da
teoria da relatividade de Einstein, começaram a surgir novas teorias que
incluem fenômenos tão exóticos como os buracos-negros e os buracos-de-verme.

Segundo alguns dos mais conceituados físicos da atualidade, o Universo
estará permeado de buracos-de-verme, que são túneis no espaço-tempo que
poderiam ser usados e até construídos por civilizações muito avançadas para
viajar, ultrapassando as limitações teóricas impostas pela velocidade-limite
da luz. Estes túneis do espaço-tempo permitiriam, entre outras coisas,
passar de um Universo para outro.

À luz do Espiritismo

Não podemos deixar de esboçar por vezes um ligeiro sorriso, quando deparamos
com algumas das conclusões científicas como as acima referidas, e por dois
motivos: um pelo reconhecimento daquilo que algumas revelações espíritas têm
vindo a afirmar ainda antes de os cientistas estarem dispostos a aceitar
tais teses; o outro, perante uma certa ingenuidade da abordagem científica.
Tentemos refinar estas duas afirmações.

Em primeiro lugar, o Espiritismo não vem tentando aproveitar da ciência
aquilo que lhe interessa para suporte das suas teses, rejeitando tudo o que
com elas não se compatibiliza. Acontece na realidade que o Espiritismo tem
tido uma capacidade de previsão e de explicação notável dos fenômenos, o que
em ciência é sempre considerado como a melhor prova da correção de uma
teoria.

Em segundo lugar, nós espíritas não podemos deixar de sorrir por vezes
perante o preconceito com que a ciência oficial encara toda a fenomenologia
que escapa às ferramentas do seu método habitual. É interessante assinalar,
por exemplo a posição de um dos autores atrás citados sobre este tema da
origem da vida, quando classifica de «recurso ao sobrenatural» as teses que
recorram a intervenções externas para dinamizar a vida no nosso planeta. É
uma atitude equivalente a desprezar o pensamento de um indígena que, ao
encontrar um relógio perdido num deserto, associasse o maravilhoso do
mecanismo à intervenção de outros seres mais evoluídos. Se não se deve, na
realidade, em ciência, fomentar o mito, também não é adequado deitar fora
elementos de trabalho que poderiam revelar-se fundamentais.

Por fim, uma palavra de apreço à ciência por muito do que sabemos e outra de
advertência. Foi com o método científico que aprendemos a ser meticulosos
nas nossas observações e cautelosos nas nossas conclusões. Allan Kardec
ensinou-nos a respeitar estes princípios e dessa forma incorporou o método
científico no espiritismo.

Em ciência, constrói-se passo a passo, sem precipitações, aproveitando os
alicerces e o edifício já edificado por outros anteriormente, sempre na
esperança de que esses precursores tenham tido o mesmo cuidado na sua
construção.

Mas por vezes alguns dos que se dizem cientistas não estão livres de
preconceito, nem escapam à tentação de querer ver apenas aquilo que querem
ver.

A história da pesquisa científica sobre a origem da vida está eivada de
casos deste gênero, que contaminarão durante muito tempo o edifício
científico nesta área. É necessário separar o trigo do joio.

__________

Parâmetros da fórmula de Drake:

R: Taxa de formação de estrelas susceptíveis de gerar condições para a vida.
fp: fração de estrelas com sistemas planetários.
ne: fração de planetas com condições ambientais para suportar vida.
fl: fração de planetas com condições apropriadas, que suportam vida
atualmente.
fi: fração de planetas com vida, que terão vida inteligente.
fc : fração de civilizações com capacidade tecnológica para serem detectadas
no espaço.
L: indicador da duração de uma civilização capaz de enviar para o espaço
sinais inteligentes detectáveis.
N = número de civilizações tecnológicas detectáveis no Universo.

Referências bibliográficas:

(1) Stephen Hawking .O Fim da Física. Gradiva (1994).
(2) B.Yavorsky, A.A.Detlaf. Prontuário de Física. Edit. Mir (Moscovo 1984).
(3) Máximo Ferreira, G. Almeida. Introdução à Astronomia e às Observações
Astronómicas. Plátano edit. (1993).
(4) Robert Burnham. Glorious Universe. Astronomy-Out-1992.
(5) Belinda Wilkes.The emerging pictures of quasares. Astronomy-Dez-1991.
(6) Jeff Kanipe. Rethinking the Big-Bang. Astronomy-Abr-1992.
(7) David Bruning. Lost and found: pulsar planets. Astronomy-Jun-1992.
(8) David Brunning. Desperately seeking Jupiters. Astronomy-Jul-1992.
(9) Seth Shostak. Listening for life. Astronomy-Out-1992.
(10) Christopher Chyba. The cosmic origins of life on Earth.
Astronomy-Nov-1992.
(11) Ken Croswell. Have Astronomers solved the quasar enigma?.
Astronomy-Fev-1993.
(12) Alan Dyer. A new map of the Universe. Astronomy-Abr-1993.
(13) Julie Paque. A friend for life? . Astronomy-Jun-1995.
(14) Richard Monda. Shedding light on Dark Matter. Astronomy-Fev-1992.
(15) Planetary Society. Planetary Report; vol. xiii, nº 5.
(16) Planetary Society. Planetary Report; vol. xv, nº 3.
(17) Michio Kaku. What happened before the Big-Bang?. Astronomy-Mai-1996.
(18) Patrick Moore. The New observer’s book of Astronomy. Warne publ.
(Londres 1962).
(19) Robert Naeye. New solar systems. Astronomy-Abr-1996.
(20) Robert Shapiro. Origens – A criação da vida na Terra, um guia para o
céptico. Gradiva (1987).
(21) Barry Parker. Tunnels through time. Astronomy-Jun-1992.

De: Francisco Curado
Enviado por: Lúcia Rebelo (Revista Cristã de Espiritismo)
(Artigo originalmente publicado na Revista de Espiritismo – Portugal –  nos
nº.s. 32, Julho-Agosto-Setembro 1996 e 33, Outubro/Dezembro 1996, sendo aqui
reproduzido com autorização do autor)

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