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UMA ENTREVISTA COM JESUS DE NAZARÉ

Com alguma dificuldade o repórter adentrou o recinto onde Jesus de Nazaré fazia mais uma exposição de suas ideias, aproveitando a companhia de um de seus seguidores, Pedro, que lhe assegurou um lugar próximo, que possibilitasse a entrevista assim que a exposição encerrasse, o que de fato aconteceu.

Jesus já se preparava para levantar-se, enquanto alguns dispersavam e outros tentavam falar com ele, quando o repórter antecipou-se e pediu-lhe uma entrevista, no que foi prontamente atendido.

Repórter: Por favor, seu nome e origem.
Jesus: Me chamo Jesus, sou de Nazaré, carpinteiro como meu pai, José. Minha mãe se chama Maria, mas alguns a chamam de Míriam, e tenho irmãos e irmãs.

R. Se me permite, vou direto a uma questão provocadora. O senhor pretende fundar uma nova religião ?
J. Não. Mas sei que muitos o farão assumindo o meu nome e adaptando meus ensinos aos seus interesses e objetivos.

R. Mas, se não pretende fundar uma religião, qual o propósito de suas peregrinações, de seus discursos e ensinos?
J. Pretendo relembrar, com outras palavras, o que já foi ensinado por outros antes de mim, como o grego Sócrates e o indiano Gautama, também chamado de Buda. Pretendo ensinar, sim, uma nova ética para a relação da criatura com o Criador, sem intermediários, discriminações ou favorecimentos.

R. É uma proposta que poderá ser considerada subversiva tanto pelas autoridades judaicas quanto romanas. O senhor não teme isso?
J. Não temo, mas sei que meus ensinos contrariam interesses de classe, de casta, de raça, de crença.

R. Seus seguidores são, em sua maioria, gente pobre, iletrada. Eles compreendem seus ensinos ?
J. Certamente compreendem mais e melhor que os ricos e nobres, já que convivem com o sofrimento e a escassez. Uso parábolas. Meus ensinos são para todos, mas dirijo-me mais diretamente a eles, pois são os mais necessitados de conforto e esclarecimento. Os ricos estão por demais envolvidos com outras coisas, como cuidar em multiplicar suas riquezas terrenas.

R. Vejo que homens e mulheres, doentes de todos os tipos, crianças, estropiados, loucos e prostitutas o cercam para ouvi-lo. Isso não o desagrada?
J. De modo nenhum, pois foi principalmente por eles e para eles que vim. Os nobres e ricos se sentem bem como estão, eu já lhe disse !

R. Como o senhor se posiciona quanto a mulher numa sociedade tão machista, tanto a romana quanto a judaica ?
J. Todos são iguais perante o Criador. Homens e mulheres têm os mesmos direitos e o mesmo futuro, segundo a vontade de nosso Pai.

R. Andam falando mal por vê-lo conversando com mulheres de má fama, principalmente sobre aquela cortesã. Não acha que isso pode comprometer seus propósitos ?
J. Não deixo que interesses mundanos e passageiros definam o que vou ensinar. Você se refere a Maria, aquela de Magdala. Pois eu lhe digo que foi ela a primeira quem melhor e mais completamente compreendeu meus ensinos. Desde então me acompanha e me ouve com atenção.

R. Alguns o consideram, e outros o desejam, como um novo rei dos judeus. Que diz disso ?
J. Não sou rei e não vim para disputar a política desse mundo. Estou aqui para reinar sobre corações, se assim me posso expressar. Meu reino não é deste mundo. O que desejo é que a paz se estabeleça entre homens e mulheres, que haja mais compaixão, tolerância, justiça e igualdade. Mas sei também que estou apenas semeando as ideias que só o futuro poderá tornar realidade.

R. Suas atitudes contra os fariseus e escribas têm gerado comentários que o colocam em perigo. Convenhamos que dizer que são túmulos caiados, brancos por fora e cheios de podridão por dentro é uma provocação perigosa, para dizer o mínimo !
J. Apenas aponto um fato. São homens que se fazem de bons e justos, mas não são bons nem justos. São oportunistas, vaidosos, egoístas, orgulhosos de suas posições tão transitórias, iludidos como se pudessem evitar a morte que virá buscá-los como a todos os outros.

R. E aqueles comentários sobre sua conversa com Moisés e Elias no monte Tabor? Ambos já não morreram há séculos? Isso está dando o que falar e muitos o consideram um lunático !
J. A morte não existe, por isso conversei com Moisés e Elias, e também com aqueles que vocês chamam de “demônios”, mandando que saíssem do corpo dos infelizes que atormentavam. Eles me respeitam e me obedecem. Não me importo que me considerem louco, pois fizeram pior com os profetas que vieram antes de mim.

R. Seus ensinos confundem. Como saber se uma pessoa é boa ou má, justa ou injusta?
J. Pelos frutos se conhece a árvore !

R. Por que o chamam de mestre, e porque existem tantos deuses ?
J. Porque de fato sou mestre, no que se refere às coisas da vida verdadeira, e quanto aos muitos deuses, só existe um Criador, que atende por muitos nomes. Quanto às guerras e violências praticadas em nome de deuses, … culpe os homens e não o Criador.

R. O senhor falou de falsos salvadores e falsos profetas. O que isso quer dizer ?
J. Porque muitos virão em meu nome, dizendo coisas que eu não disse, ensinando coisas que eu não ensinei, mercantilizando a fé em meu nome, farão das casas de oração verdadeiros mercados, aproveitarão a ignorância de muitos para se fartarem das coisas terrenas. Tudo em meu nome e no nome daquele que nos criou. Mas agora preciso ir. Outros em outros lugares me esperam.

R. Está triste, mestre? Deixe uma mensagem, um recado ou uma síntese dos seus ensinos para encerrarmos !
J. Ama o Eterno sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo ! Vá em paz !
Paulo R. Santos
Colaboração:  Bia Garuti

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