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Um exorcista no Vaticano

No fim da adolescência, o italiano Gabriele Amorth já enfrentava inimigos perigosos.

Natural de Módena, aderiu à Resistência e, em 1943, aos 18 anos, comandou um batalhão da Brigada Italia. A milícia, integrada por católicos, combatia os fascistas e nazistas que infestavam sua terra. Depois da Segunda Guerra Mundial, formou-se em direito para seguir a carreira do pai e do avô.

Os embates nos tribunais, porém, não o atraíram por muito tempo. Resolveu trocá-los pela política e se tornou vice de Giulio Andreotti, que presidia a ala jovem da Democracia Cristã e, mais tarde, chegaria a ocupar o cargo de primeiro-ministro do país por sete vezes. As batalhas no Parlamento tampouco seguraram Amorth, que abandonou tudo para ingressar no seminário. Em 1954, virou padre pela ordem dos paulinos.

Teve uma vida sacerdotal atarefada e, após três décadas, iniciou a luta em que mais se destacou. Por mandato do cardeal-vigário-geral Ugo Poletti, assumiu a função de exorcista da diocese romana – cujo bispo é o próprio papa – e passou a confrontar o maior dos adversários: Satanás.

Como combatente do nazifascismo, Amorth recebeu várias condecorações da República Italiana. Já como oponente de Belzebu, o que mais experimentou foi o desprezo, a incompreensão e a zombaria, inclusive de católicos. “Não apenas os exorcistas são poucos. Eles mal são tolerados (…) e raramente acham alguém disposto a lhes abrir a porta”, testemunhou o padre no primeiro livro que escreveu sobre o tema. Lançado em 1990, Um Exorcista Conta Sua História ascendeu à lista dos bestsellers na Europa e nos Estados Unidos.

O sucesso animou o sacerdote a tratar do assunto em outros volumes, além de assinar uma longa bibliografia sobre a Virgem Maria e são Pio de Pietrelcina. Seu último livro, O Exorcista Explica o Mal e Suas Armadilhas, acaba de sair no Brasil pela editora Petra. Meses antes, em setembro, o Vaticano anunciou a morte do autor. Ele tinha 91 anos.

Todas as cerca de três mil dioceses espalhadas pelo planeta devem contar com ao menos um exorcista oficial. É difícil afirmar quantas realmente cumprem a determinação. Convicto da importância de sua missão, Amorth fundou a Associação Internacional de Exorcistas em 1990 e a comandou até o ano 2000.

No entanto, uma parcela significativa dos fiéis preferiria que a Igreja tivesse deixado de lado a crença nos demônios e em sua própria autoridade para combatê-los. Muitos acreditam, inclusive, que isso já aconteceu, graças ao Concílio Vaticano II. Entre 1963 e 1965, o papa e os bispos do mundo inteiro se reuniram diversas vezes na capital italiana para refletir sobre os desafios da contemporaneidade.

Parte dos católicos, incluindo clérigos, aderiu a uma interpretação que enxerga no concílio uma ruptura com a tradição. Dessa maneira, não falta quem leia as passagens do Evangelho que descrevem exorcismos e demônios como meros símbolos ou metáforas.

“Na ocasião, estava na sinagoga deles um homem possuído de um espírito impuro, que gritava dizendo: ‘Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para arruinar-nos? Sei quem tu és: o Santo de Deus.’ Jesus, porém, o conjurou severamente: ‘Cala-te e sai dele.’ Então o espírito impuro, sacudindo-o violentamente e soltando um grande grito, deixou-o.” O trecho, extraído do Evangelho de são Marcos, é explícito e não soa nada alegórico. Mesmo assim, para a mentalidade moderna, parece mais fácil entender o Diabo como “o mal” e não como “o Mau”.

A falsa impressão de que a doutrina católica sobre demônios mudou é bastante forte no Brasil. Em 2005, quando se publicou por aqui a tradução oficial do novo rito de exorcismo, promulgado por João Paulo II em 1998, o jornal O Estado de S. Paulo noticiou assim o fato: “Há 40 anos, a Igreja começou a se desinteressar pelo velho ritual do exorcismo, com a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II. Pois, quatro décadas adiante, ela ameaça retomar a prática. Vê-se obrigada a fazer isso em defesa própria, já que os pentecostais arrebanham cada vez mais adeptos esconjurando demônios.”

Na verdade, o ritual nunca deixou de existir. O Código de Direito Canônico, que consolida as leis da Igreja, não só continua a prevê-lo como define quem pode desempenhar o papel de exorcista.

Há diferentes tipos de exorcismos. A simples renúncia à influência de Satã é um deles – cada pessoa batizada a faz quando recebe o sacramento e cada católico a renova na celebração da Páscoa. Já o chamado Grande Exorcismo consiste em expulsar o Diabo que se apossou concretamente de alguém.

Os sintomas de possessão, conforme ensinou Amorth, variam muito. Fã de O Exorcista, o padre dizia que as reações da menina possuída no filme de 1973 se aproximam muito da realidade. No Ritual do Exorcismo e Outras Súplicas, o livro oficial da Igreja sobre o tema, consta o seguinte: “De acordo com a prática comprovada, consideram-se como sinais de possessão do Demônio dizer muitas palavras de língua desconhecida ou entender quem assim fala; revelar coisas distantes e ocultas; manifestar forças acima da sua idade ou condição natural. (…)

Como, porém, os sinais desse gênero não são necessariamente atribuíveis ao Diabo, convém atentar para outros, sobretudo de ordem moral e espiritual, que também manifestam a intervenção diabólica, como a aversão veemente a Deus, ao Santíssimo Nome de Jesus, à Bem-Aventurada Virgem Maria e aos Santos, à Igreja, à palavra do Senhor, a objetos e ritos, especialmente sacramentais, e às imagens sagradas.”

Amorth calculava que realizou cerca de 70 mil exorcismos. Entretanto, só contabilizou 100 casos de possessão propriamente dita. Sempre mais sóbrio do que o pentecostalismo, o catolicismo não abdica da discrição quando se trata de expulsar Satanás.

O novo rito de exorcismo preconizado pelo Vaticano recomenda que a prática não se confunda com “ação mágica ou supersticiosa”: “Tenha-se a precaução de não fazer dela um espetáculo para os presentes. Todos os meios de comunicação social estão excluídos durante a celebração do exorcismo, e também antes dessa celebração. Concluído o exorcismo, nem o exorcista nem os presentes devem divulgar qualquer notícia a seu respeito.”

Segundo a doutrina católica, os demônios são “pessoas”. E “pessoa”, na definição de Santo Tomás de Aquino, o mais importante teólogo da Igreja, “é uma substância racional” – ou tudo aquilo que existe em si mesmo (“substância”) e exibe tanto inteligência quanto vontade (“racional”). O azul, por exemplo, nem sequer é uma substância. É uma qualidade.

Algo precisa existir para ser ou não azul. Já todos os seres humanos são “substâncias racionais” e, portanto, “pessoas”. O Pai, o Filho e o Espírito Santo são as três “pessoas” de Deus. Os anjos também são “pessoas”.

Existem em si, como criaturas puramente espirituais (sem corpo), e têm inteligência e vontade – a tal ponto que alguns, por orgulho, se recusaram a servir ao Senhor no Céu e acharam “melhor reinar no Inferno”, dando “adeus aos campos felizes onde a alegria sempre mora”, conforme escreveu o poeta inglês John Milton. Esses são os demônios. É contra eles que se praticam exorcismos.

Deve-se tomar cuidado, no entanto, para não confundir distúrbios mentais com possessões. O novo rito de exorcismo demarca bem os campos e preconiza que só se faça o esconjuro em alguém depois de esgotadas as hipóteses de males psiquiátricos.

O padre Amorth não gostou dessa diretriz. “Sem praticar o exorcismo, é difícil certificar-se se há ou não necessidade dele”, argumentava.

Na psiquiatria moderna, um dos métodos mais seguros de diagnóstico é o próprio remédio: se o antidepressivo curar, tratava-se de depressão. A mesma lógica valeria para a luta contra Satanás: se o exorcismo curar, tratava-se de possessão. Por isso, com autorização do bispo, Amorth sempre usou o ritual anterior à mudança, codificado em 1614.

O sacerdote não se acanhava em expressar suas convicções acerca da influência demoníaca no mundo de hoje. Em 2011, condenou a ioga, por levar “a um culto ao hinduísmo, e todas as religiões orientais se baseiam numa falsa crença, a da reencarnação”.

Para Amorth, os livros e filmes de Harry Potter podem parecer inócuos, mas estimulam os leitores a acreditar em magia e bruxaria. Ele também não poupava o recorrente flerte do rock com o Diabo (vide o hit Simpathy for the Devil, dos Rolling Stones).

Ideias como essas o tornavam uma figura incômoda. Convidado para redigir o prefácio da edição americana de Um Exorcista Conta Sua História, o padre e psicólogo Benedict Groeschel cogitou recusar. “Embora eu tenha tido experiência com pessoas sofrendo do que estou convencido ter sido influências diabólicas, tenho dificuldades com a abordagem de Amorth”, acabou escrevendo.

“Ele usa uma retórica estranha para a maioria de nós e até conceitos teológicos alheios a nosso modo de pensar, mas a mesma coisa pode ser dita dos relatos do Evangelho sobre a obra de nosso Salvador, livrando os ‘possuídos por maus espíritos.’”

O papa Francisco costuma falar clara e insistentemente do Demônio como uma “pessoa” e não como simples metáfora do mal. Por isso, credita-se a ele o renascimento do interesse pelo exorcismo na Igreja. Muitas dioceses que não dispunham de exorcistas passaram a dispor. Hoje a de Milão tem 12. Na de Roma, havia cinco. Atualmente, são dez.

Metade das dioceses da Inglaterra e do País de Gales não possuíam nenhum e agora todas possuem. Esses dados foram divulgados em outubro, no mais recente congresso da Associação Internacional de Exorcistas.

Presente ao encontro em Roma, o papa Francisco cumprimentou os cerca de 300 participantes pelo “belo trabalho”.

Numa homilia de 2014, mostrou-se bem mais enfático: “Cuidado, o Diabo existe! Mesmo no século XXI, o Diabo existe. Não podemos ser ingênuos e devemos aprender com o Evangelho como lutar contra Satã.”

MARCELO MUSA CAVALLARI
Jornalista

Traduziu O Livro da Vida, de santa Teresa d’Ávila, pela Companhia das Letras

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