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Testamento de um idoso com Alzheimer

Junto com meu testamento,
no qual lego a meus filhos e amigos a minha vontade de viver
e meu amor a Deus e a toda a criação, faço um pedido:
se, por ventura, no meu cérebro a senilidade penetrar sorrateiramente,
a demência se infiltrar inesperadamente e o esquecimento, a falta de lucidez e a confusão se instalarem, por favor, lembrem que eventualmente, ainda tenho uma vaga idéia de minha identidade; gosto de ser chamada pelo meu nome,
aquele que meus pais me deram;
posso ainda saber onde estou e com quem estou;
posso estar gostando ou não de onde estou e com quem estou
faço ainda questão de usar aquele tipo de sapato que toda a minha vida usei;
gosto ainda de usar a roupa ao estilo que sempre preferi;
a roupa dos outros colocada em mim me entristece.
A falta de atenção em me ajudar na higiene pessoal me traz ansiedade.
A comida de um estilo que não conheço não me apetece;
as fraldas de vez em quando me incomodam
e me deixam envergonhada.
Gostaria, às vezes, de caminhar para espairecer e ver a natureza.
Receber uma palavrinha me faz lembrar que sou gente;
receber visitas me faz lembrar que sou importante;
receber um abraço e um beijo me diz que alguém ainda tem afeto por mim.
A falta de sono não é proposital, nem intencional;
a falta de interesse está além do meu controle;
minha falta de jeito é inexplicável para mim mesma;
o esquecimento me deixa traumatizada.
Tenho dores que às vezes não posso contar.
Nem sempre o que me fazem fazer é o que eu gostaria de estar fazendo.
Meu olhar vago não reflete o que sinto.
E se não dou um abraço é porque os meus braços não me obedecem mais
se não dou um beijo é porque meus lábios não sabem mais o que fazer.
Se não te digo que valorizo sua dedicação e seu amor é porque a ponte se partiu e perdi o caminho que me levaria a compartilhar meus sentimentos com você….

Ass. “Um ser Humano que Envelhece”
(Lilian Alicke)
Recebido de: Aline Pagliuco

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