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Quando o cérebro cai na fossa

 cerebroRevista Superinteressante – Setembro-1992-

por Carla Leirner

Cerca de 250 milhões de pessoas, ao redor do mundo, se encontram na mais profunda depressão. Razões emocionais podem tê-las empurrado ao fundo do poço, mas os médicos sabem que isso não basta: os deprimidos são doentes crônicos, cujas células nervosas não trabalham direito.

Existe um mundo em preto e branco, não muito longe daqui. Seus moradores são esquálidos, porque lá a comida perde o gosto. Não há Sol, nem há Lua. Cada dia é igual ao outro. Todas as pessoas são consideradas preguiçosas, porque poucas conseguem sair da cama. E, se o fazem, o simples ato de escolher uma roupa transforma-se numa tarefa das mais difíceis. Muitas chegam a abandonar o trabalho e, até mesmo os amigos. Quanto maior a falta de informação sobre o seu problema, mais tempo elas perdem nesse cenário sombrio. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, pelo menos uma em cada vinte pessoas na face da Terra já visitou ou ainda visitará o planeta da depressão.

Em suas anotações o célebre médico grego Hipócrates (460-377 a.C.) relatou o caso de uma mulher que sofria de uma melancolia intensa, acompanhada de insônia e perda de peso. Na realidade, hoje se sabe, ela sofria de depressão, um distúrbio do humor que é mais freqüente entre as mulheres. Ninguém conhece a razão dessa diferença entre os sexos, mas as estatísticas apontam que, para cada três mulheres deprimidas, há apenas um homem na mesma situação. Durante muito tempo, os pesquisadores da depressão se dividiram em linhas de pensamento. Alguns insistiam em culpar única e exclusivamente o ambiente em que vivia o deprimido — este, portanto, viveria afogado em tristeza por causa de fatores externos, como um trabalho desagradável, brigas em família, más notícias de todo tipo. Outros pesquisadores, por sua vez, sempre acreditaram que a depressão tinha origem orgânica. Neste caso, por causa de um distúrbio do corpo, o deprimido seria capaz de ver um mar de rosas como se fosse um vale de lágrimas.

Chegaram mais perto da verdade, porém, os cientistas que defendiam a interseção dessas duas primeiras correntes. Não há mais dúvida: a depressão é tanto um problema de ordem psicológica como orgânica. As primeiras pistas para decifrar os mecanismos da depressão surgiram ainda no início dos anos cinqüenta, com a descoberta de que alguns medicamentos eram capazes de aliviar os seus sintomas. Ora, se funcionavam, era porque esses distúrbios deveriam ter um fundamento orgânico, em vez de serem simplesmente psicológicos. Hoje, de fato, parece existir um consenso entre os especialistas: a depressão se traduz como uma desordem no cérebro, disparada por uma série de fatores que interagem entre si. Um dos fios dessa trama tão intricada é a herança genética. Mas, ao contrário do problema do nanismo, por exemplo, que é determinado por um único gene, a depressão é fruto da ação de diversos genes com efeito cumulativo. Segundo o geneticista Oswaldo Frota-Pessoa, professor da Universidade de São Paulo, é fácil entender o que isso significa, ao se observar a estatura das pessoas: “Se houvesse apenas um gene para determinar pessoas muito altas e outro gene para baixinhos, não existiriam pessoas de estatura mediana”, ensina. “Se existe gente de todo tamanho, é porque a estatura é uma característica multifatorial, do ponto de vista da Genética. Na fase de crescimento, diversos genes podem ser acionados, ou não, conforme influências externas, como a prática de esportes e a nutrição.” O resultado final, ou seja, a interação desses fatores com os genes, será marcado pela fita métrica.

A depressão, feito a estatura, também pode se manifestar em diferentes níveis. Mais do que isso: “No caso, o que se herda é a predisposição para o problema”, esclarece Frota-Pessoa, que já investigou a possibilidade de a tendência ao suicídio ser hereditária. “Existem pessoas com vulnerabilidade genética para ficarem deprimidas, mas que não cairão necessariamente na depressão.” Os estudos sobre a responsabilidade da bagagem hereditário não invalidam a teoria dos neurologistas. Os médicos notam que, no sistema nervoso do deprimido, existe uma espécie de defeito na produção de dois neurotransmissores, a noradrenalina e a serotonina — uma dupla de importantes mensageiros químicos entre os neurônios.

Qualquer alteração na quantidade de uma dessas substâncias já é suficiente para abalar a dosagem da outra. “O desequilíbrio entre os dois neurotransmissores atinge principalmente as áreas cerebrais relacionadas à memória, à motivação, à capacidade de atenção e de planejamento” acusa a neuropisicóloga Cândida Pires de Camargo, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Resultado: o deprimido, em vez de mera vítima da melancolia, passa a sofrer de graves distúrbios do comportamento. Há, no entanto, depressões e depressões. Os especialistas costumam classificá-las em dois tipos. Um deles é a depressão bipolar, também conhecida como psicose maníaco depressiva (PMD). Quem tem PMD alterna momentos de profunda depressão, em que provavelmente há falta de neurotransmissores, com fases de esfuziante euforia, em que, ao contrário do que acontecia antes, essas substâncias se derramam em excesso dentro do cérebro. Tanto num extremo quanto no outro, o maníaco-depressivo não se sente bem. Existe ainda a depressão do tipo unipolar, aquela tristeza sem fim “O paciente tem a sensação de que o mundo acabou”, define o psiquiatra Valentim Gentil, professor da Faculdade de Medicina da USP. Segundo ele quando o doente não recebe tratamento, essa viagem ao mundo cinzento e sem atrativos pode não ter volta: cerca de 10% das pessoas com depressão unipolar acabam dando cabo à própria vida.

Os especialistas, fique claro, não dispensam o adjetivo unipolar, quando querem tratar do assunto. Isso para não confundir essa espécie de depressão, em que o descuido pode ser literalmente fatal, com angústias passageiras, às quais qualquer pessoa saudável está sujeita. “É normal que alguém se sinta infeliz depois de romper um namoro ou quando morre um parente”, exemplifica a psicóloga Regina Wielenska, da Pontificia Universidade Católica, de São Paulo. “Por algum tempo, a pessoa fica em um estado que chamamos de depressão reativa, aquela detonada pelo momento ou pelo ambiente em que se vive. “Mas uma fossa amorosa ou um luto que se estende por vários meses denuncia que algo errado está se passando com o organismo. “Aquela sensação de perda pode ter sido o fator ambientar que precipitou a depressão unipolar, envolvendo disfunções orgânicas”, explica Regina. Os médicos tentam bloquear o avanço do problema com um arsenal de remédios, rotulados como antidepressivos.

Eles atuam numa região específica, a chamada sinapse: o íntimo espaço entre uma célula nervosa e outra. Por essas células passam nossos pensamentos. Além disso, elas controlam tudo, do piscar dos olhos aos batimentos cardíacos.”As ordens nervosas seguem em frente, de uma célula para outra, porque os neurotransmissores saltam o vão das sinapses”, descreve o neurologista Esper Cavalheiro, professor da Escola Paulista de Medicina. “Parte deles, no entanto, não é aproveitada e acaba sendo reabsorvida pela célula nervosa ou neurônio.” No cérebro, portanto, existe um sistema de reciclagem, responsável por uma tremenda economia de esforço, energia e matéria-prima. Só que, nesse jogo de vaivém, chega uma hora em que moléculas de neurotransmissores novinhas em folha se misturam com neurotransmissores velhos, desgastados e ineficazes. Esse problema, porém, é facilmente contornado. “Dentro dos neurônios, há uma enzima capaz de reconhecer e destruir aquelas moléculas de neurotransmissores em ponto de aposentadoria”, explica Cavalheiro. Trata-se da monoaminoxidase (MAO). Como essa enzima consegue fazer o serviço de reconhecimento ninguém sabe direito. Mas o fato é que, no caso dos deprimidos, a MAO pode ser considerada uma esbanjadora.

Afinal, no cérebro em que já existe a falta de neurotransmissores, eliminar moléculas velhas é um luxo. As drogas antidepressivos, portanto, visam a acabar com o desperdício. “De uma maneira ou de outra, elas tentam aumentar a quantidade de neurotransmissores disponíveis, uma vez que os neurônios parecem não atender à demanda”, diz Cavalheiro. Os primeiros medicamentos eficazes no combate à depressão foram os triciclicos, descobertos em 1958. Segundo o neurologista, eles agem como selantes, vedando a membrana do neurônio, para impedir a reabsorção dos neurotransmissores. Soltos nos espaços das sinapses, esses mensageiros químicos são usados até o fim.Uma segunda família de remédios é a dos inibidores da MAO — daí serem chamados de IMAO. Ou seja, os neurotransmissores são receptados normalmente, mas não podem ser aniquilados pela enzima, bloqueada pelo fármaco. A terceira categoria de drogas — e também a mais recente — é a dos medicamentos seletivos.

Eles recebem esse nome porque ajudam os neurônios a receptarem um neurotransmissor especifico, no caso, a serotonina. Finalmente, alguns médicos receitam o carbonato de lítio, um sal natural. “A substância pode ser tóxica quando há exagero na dosagem, por isso seu uso deve ser permanentemente monitorado por médicos”, adverte Gentil, da USP. Ainda assim, os especialistas recomendam o litio para os pacientes maniaco-depressivos. A maneira como o remédio age no organismo ainda não foi desvendada.As drogas antidepressivos em geral provocam efeitos colaterais desagradáveis, como boca seca, sonolência e prisão de ventre. Às vezes, em doses exageradas, as do tipo IMAO levam ao aumento da pressão arterial. “Essa é a maior dificuldade do médico: acertar na dosagem de antidepressivo, que varia de pessoa para pessoa”, conta Gentil. “No inicio, essa busca pode ser penosa. Não há como prever a qual medicamento, e em qual quantidade, o doente responderá melhor.” Segundo o psiquiatra, há também pacientes que não toleram antidepressivos. Nesses casos, há uma saída alternativa do túnel escuro da depressão — o eletrochoque. O nome, por si só, provoca arrepios de terror nos leigos. Não é à toa. Durante muitos anos, o eletrochoque foi usado como punição nos manicômios. Sem contar que, no Brasil, entre os anos sessenta e setenta, ele tinha espaço garantido, como método de tortura, nos porões da ditadura militar: depois de uma sessão de choques, os presos políticos tinham convulsões, apresentavam ossos fraturados, perdiam a memória.

“Hoje em dia, o eletrochoque é considerado um aliado na cura da depressão”, diz Gentil. “Cada passo do tratamento é monitorado por aparelhos, que controlam a passagem da corrente elétrica e a freqüência cardíaca”, esclarece. “Além disso, o paciente é anestesiado. Não há riscos nem dor.” Os choques agem como se fizessem pegar no tranco a máquina de fabricar neurotransmissores. existente dentro de cada célula nervosa. Sobretudo, os resultados são rápidos, enquanto o tratamento à base de drogas antidepressivos só começa a mostrar efeito depois de quinze dias, em média. A partir desse prazo, a subida do poço da depressão, apesar de continua, avança em marcha lenta. Quando o deprimido não desiste, porém, há 100% de chance de cura.Os especialistas concordam em que a recuperação costuma ser mais rápida quando o paciente alia a munição farrnacêutica a alguma espécie de psicoterapia.

“Afinal, enquanto a pessoa permaneceu mergulhada na crise depressiva, tudo em sua vida pode ter mudado sem que ela percebesse, desde as relações afetivas até a situação econômica”, diz o psicanalista paulista Guillermo Bigliani. “Cabe ao terapeuta auxiliar o paciente no caminho de volta, em função dos danos que a própria depressão trouxe.”Segundo Bigliani, a terapia pode evitar que uma depressão leve se agrave ao ponto de o paciente precisar do auxilio de remédios. Hoje se sabe: os deprimidos são vitimas de uma doença crônica — quem caiu na depressão uma vez tem grande probabilidade de enfrentar novas crises. Durante os episódios, os medicamentos são legitimas doses de ânimo; no entanto, uma vez suspensos, os sintomas da doença tendem a reaparecer. A sensibilidade do médico é essencial para decidir se determinada pessoa pode interromper ou deve prosseguir com o uso de antidepressivos. Felizmente, com o problema sob controle, é possível levar uma vida normal. Aquele mundo cinza, sem cor nem sabor, deixou de ser uma prisão.

Sistema de transmissão Como os neurônios se comunicam

O núcleo da célula nervosa é o encarregado de fabricar neurotransmissores. esta produção parece ser menor no organismo do deprimido. Embalagens em pequenas bolsas, ou vesículas, as substâncias neurotransmissoras percorrem o axônio, uma espécie de prolongamento celular, até chegar na extremidade. É ali que se preparam para um verdadeiro salto, pois nunca um neurônio se encosta em outro.Normalmente, moléculas de cálcio empurram as vesículas para fora da célula. As bolsas estouram, liberando os neurotransmissores. Parte deles encontrará vaga em receptores da célula vizinha. O restante retornará ao primeiro neurônio, para ser reaproveitado ou destruído pela enzima MAO, encarregada de liquidar os neurotransmissores muito velhos.Nos deprimidos, como há falta de neurotransmissores, os remédio evitam a destruição dessas moléculas. Para isso, um dos caminhos é impedir a volta dessas substâncias ao neurônio de origem, como fazem os tricíclios. Outros medicamentos inibem a ação da enzima MAO.

Uma situação familiar

As estatísticas mostram que a tendência à depressão está contida na bagagem hereditária. Em gêmeos univitelinos, cujos genes são idênticos, quando um é deprimido, há 70% de probabilidade de o outro desenvolver o mesmo distúrbio. No caso de pais, filhos e irmãos de pessoas com depressão, incluindo gêmeos não idênticos, as chances caem para 15%. Parentes mais distantes, como avós, tios e primos, têm 7% de risco. Numa família em que jantais alguém ficou deprimido, ainda assim as pessoas têm entre 2 e 3% de probabilidade de apresentar o problema.

Revista Superinteressante – Setembro-1992-

por Carla Leirner

 

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