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O que fizeram com o Chico Xavier

Consta que no início de abril do ano de 1969, veio ao Brasil um grupo de empresários americanos, de uma mega editora dos Estados Unidos, para ter um encontro com o Chico Xavier, objetivando informá-lo que eles queriam traduzir todos os seus livros para o inglês, além de todos os outros livros espíritas que ele recomendasse, editá-los nos Estados Unidos e lançar as obras no mundo inteiro.

Queriam saber se ele concordava com a ideia e se autorizaria.

Ao fazerem a proposta em Uberaba, o Chico emocionou-se tanto e deu mil graças a Deus por aquilo que ele chamou de “uma bênção”.

– “Claro, meus irmãos, que eu concordo! Quanta alegria vocês me trazem, como um verdadeiro presente de aniversário! Isto é uma benção, mas acontece que os direitos das obras foram todos doados à Federação Espírita Brasileira, que certamente autorizará.”

Consta que o velho mineiro ficou tão feliz, os convidou para almoçar, eles ficaram três dias em Uberaba, conheceram os trabalhos e um deles até recebeu uma mensagem psicografada, em inglês, de um parente desencarnado.

De lá os homens partiram para Belo Horizonte e em seguida para Brasília, para um encontro com a diretoria da FEB.

A reunião aconteceu, a proposta foi feita a então diretoria e, pasmem senhoras e senhores, vejam a resposta:

– “Nós não autorizamos. O problema de tradução é muito sério, vocês vão adulterar as obras e o prejuízo para o Espiritismo vai ser muito grande. Lamentamos, mas não autorizamos”.

De fato, não restam dúvidas de que a tradução de obras literárias de um idioma para outro geralmente causa problemas sérios de interpretação de orações, porque os tradutores não podem se limitar apenas a traduzirem as frases como elas aparecem, mesmo com as colocações verbais e gramaticais corretas, porque existe um fator indispensável a considerar que é “como as pessoas do

País de origem da língua da obra entendem determinada frase ou determinada colocação”. Este é um problema muito sério e, por incrível que pareça, até mesmo em traduções das obras básicas, do Francês para o Português, existem contradições ao pensamento de Allan Kardec e aos pensamentos dos Espíritos, conforme está no original.

As traduções da Bíblia, por exemplo, trazem absurdos terríveis, por causa disto. Mas não é esta a questão que estamos analisando agora.

Concordando com a preocupação da FEB, pertinente com certeza, os editores americanos propuseram o seguinte:

– “Então os senhores indicam uma equipe de tradutores juramentados para acompanharem todo o trabalho de tradução, que nós bancamos todas as despesas e honorários. Só publicaremos cada obra, após o de acordo da FEB, para manter a integridade da mesma”.

Mesmo assim a FEB não autorizou.

Consta que os homens ficaram uma semana em Brasília, voltando lá diversas vezes, solicitando serem atendidos, foram atendidos apenas uma vez, do lado de fora, com todos em pé, e não mais foram recebidos, quando ouviram um funcionário lhes transmitir um recado da diretoria que dizia que o assunto estava encerrado.

Consta que o Chico estava num clima parecido de “lua de mel”, tamanha a sua felicidade, com aquela nova idéia, que só poderia ser trabalho da espiritualidade maior, até que lhe veio a notícia:

A FEB NÃO AUTORIZOU!

Quase o Chico desencarna quando soube daquilo. Custou a acreditar no que estava ouvindo. Tentou falar com alguém da diretoria da FEB, mas consta que não encontrou ninguém que pudesse atendê-lo para falar sobre o assunto.

O notável médium entrou num processo de ira tão grande, chegando a passar mal e até a ser levado a um hospital.

A partir daí decidiu a nunca mais doar os direitos e muito menos autorizar que a FEB publicasse qualquer livro escrito sob a sua psicografia.

Se todos procurarem checar o assunto e observarem a relação de livros psicografados pelo Chico, notará que, de fato, a partir de uma determinada época não consta mais livro nenhum do Chico editado pela FEB.

Existem alguns livros editados, inclusive no ano de 1971, pela FEB, que são, se não me engano, o “Rumo Certo”, que é um livro de mensagens do Emmanuel, e o “Antologia da Espiritualidade”, um livro de poesias de Maria Dolores. Acontece que o Chico havia doado esses direitos antes do acontecido, já que nem sempre os livros eram publicados no ano que o direito foi cedido.

A partir daí, podem observar, os livros começaram a ser editados apenas pelas editoras Clarim, CEC, Edicel, GEEM, FEESP, IDE, LAKE, CEU etc.

No ano de 1992, voltando a São Paulo, já amigo do Teodoro Lausi Sacco, voltei à FEESP para conversar sobre o assunto, indignado ainda com aquilo, e lhe pedi maiores detalhes e informações sobre o acontecido.

Ele me disse que pouca gente, do movimento espírita, sabia daquilo e que a lembrança do fato fazia o Chico muito triste.

Tendo que retornar à Belém do Pará, pedi à VARIG que desdobrasse a minha passagem, parando por uns dois dias em Brasília.

Eu já tinha uma certa amizade com o Nestor João Masotti, que hoje é presidente da FEB mas na época (1992) era um dos seus vice-presidentes (a FEB tem mais de um vice-presidente).

Ele sempre me tratou muito bem, com muita atenção… aliás, o Nestor sempre trata bem a todo mundo, é um “gentleman”, um espírita do mais alto nível, um homem digno de estar onde está hoje. Não é um espírita de rótulo.

Do aeroporto fui direto à FEB e começamos a conversar a respeito do fato.

Eu imaginava que o Nestor soubesse daquilo, por ser um espírita muito influente no País e até no exterior, inclusive ex-presidente da USE (União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo).

Hoje ele é presidente do Conselho Espírita Internacional.

Cheguei até a perguntar a mim mesmo: “Puxa vida, como é que pode, o Nestor um homem de São Paulo, atuante no movimento espírita paulista, não saber disto que me foi informado pelo presidente da FEESP, também grande nome do espiritismo paulista?”.

Mas são coisas da vida, ou melhor, coisas de movimento espírita.

Conversamos muito, relatei para ele tudo o que o Lausi Sacco havia me dito e ele manifestou-se surpreso com a notícia.

Saímos para almoçar, juntos, num restaurante de Brasília, a bordo de um Del Rey cinza ou azul que ele tinha e prosseguimos na conversa no restaurante.

O assunto tem bem mais detalhes, mas eu tenho que resumir aqui, já que o pessoal reclama que eu escrevo demais.

De volta ao seu gabinete o Nestor me disse que iria procurar ver se existiam registros acerca do fato nos livros de atas da FEB, arquivados desde a sua fundação.

Entraria em contato comigo e me diria alguma coisa, caso existisse ou caso não existisse nada registrado.

Um mês depois, mais ou menos, ele me ligou para Belém e me disse o seguinte:

– “De fato o episódio aconteceu. Há registros, sim. Mas aconteceu em uma época em que a FEB atravessou um dos momentos mais difíceis da sua história, momento este em que quase há um rompimento até mesmo com as federativas estaduais…”.

Na oportunidade questionamos, eu e ele:

– “Que tal a ideia de tentarmos descobrir quem são essas editoras americanas hoje, esses homens e vermos se eles ainda existem e estão dispostos a darem continuidade à ideia.”.

Pela cabeça do Nestor Masotti, tenho certeza de que uma ideia desta jamais seria reprovada.

Mas será que todos os outros dirigentes espíritas, mesmo os atuais, pensariam como ele?

Será que, pela coisa ser grande demais, não seria reprovada mais uma vez pelos espíritas donos da “pureza” doutrinária que, em nome da “humildade”, continuam a reprovar tudo o que é grande, na concepção equivocada de que pelo Espiritismo só se podem fazer coisas pequenas?

Será que a pessoa espírita brasileira, indicada para acompanhar os americanos no processo das traduções, pessoa esta que certamente seria bem remunerada, obviamente pelas poderosas editoras, não seria acusada de ganhar dinheiro às custas do Espiritismo?

Fica aí a história para a reflexão de todos.

De: Alamar Régis

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