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Entrevista com: Christiane Torloni, Letícia Sabatela e outros

Marcos Bernstein, o roteirista

Como foi o processo do roteiro? Quanto tempo de trabalho?

Acho que foi um processo que durou mais de um ano. Claro que não todo dia. Mas eu ia entregando roteiros e discutia, buscava novas versões que aconteceram neste período de um ano. Eu tinha muita vontade de trabalhar com o Daniel Filho, pois ele sempre pensa no todo do filme. Ele sempre traz questionamentos que se fazem retrabalhar as coisas, mas que conta um todo. Isto é muito bacana. A gente usou como base As Vidas de Chico Xavier. É uma base maravilhosa, um livro bom de ler e cheio de informação. Mas tivemos de buscar novas formas de informação. Fomos ambiciosos em escolher três fases da vida do Chico. Enfim, não é totalmente cronológico, mas segue na liberdade da literatura. Trabalhamos na ideia do “Pinga-Fogo”. Tem também este casal, que é uma mistura de várias coisas que a gente achou. Nesta primeira etapa, com o Daniel, estava bacana. O roteiro e a criança. O encontro emocional era muito forte. A vida adulta era divertida, mas não tinha o mesmo peso das outras duas. Foi aí que entrou a Cris D´Amato, foi ela quem fez uma grande pesquisa e achou detalhes para compor esta parte. A partir daí, redesenhamos o miolo. Ganhamos muito mais corpo e eventos. Finalmente encontramos o peso. Ela voltou muito ao livro do Marcel para buscar estas cenas, foi muito bacana. Finalizamos tudo.

Qual foi a cena que marcou você como roteirista?

Tem cenas emocionantes ao longo do filme. Tentamos balancear as emoções com as sutilezas, pois tudo é muito triste. A infância dele é muito triste, ele queria se entender… Ele tenta acalentar a todos. Inevitavelmente, lida com a emoção das pessoas. Na infância, há muitas partes tocantes. Não tenho nada em especial… Tem a infância, as tragédias, ele perdendo o irmão, tem o casal. A vida dele é uma vida suave que causava grandes repercussões. O negócio do roteiro é trazer isto para um conflito, mas em pequenos momentos. Emoções especiais aqui e ali.

Christiane Torloni, a Glória

Como é sua personagem?

A Glória é uma personagem difícil, pois ela narra o ápice de uma dor. Um personagem que não dá descanso. Esta história toda de uma família estar envolvida com outra e um assassinato acontece desagrega toda a amizade entre as duas famílias. Se perde. A passagem da Glória e do Orlando ao longo do filme é um clímax de uma dor.

Qual é a importância do Chico Xavier para o Brasil?

O Chico transcende as fronteiras da matéria. Ele é importante para as pessoas que nem sabem quem é ele. A sua palavra já tocou tantas pessoas… Eu tive a oportunidade de, em 1994, fazer um trabalho inspirado na Doutrina Espírita (a novela A Viagem). Na época existiam 7 milhões de espíritas inscritos. Hoje, todos os espiritualistas se sentem comovidos com a fala do Chico. É de uma bondade, um consolo. Quando vimos novamente A Viagem, pudemos perceber o tamanho consolo, tamanha palavra. O sentido de um trabalho como este é confortar as pessoas. Ela dá a certeza desta falta de permanência e de que a morte não é o fim, isso é interessante, pois você vê isso no catolicismo. A vida parece uma gincana em que você diz: “Caramba, quando é que se respira?” Tem momentos em que a arte é esta respiração.

Daniel Filho diz que é um ateu convicto, mas está dirigindo um filme sobre um mito do espiritismo…

Acho isto ótimo para o filme, pois assim ele mostra mais neutralidade. Não cai na armadilha da fé. Allan Kardec não caía nesta de espiritismo, ele dizia que era besteira, mas nós vimos no que deu. Este filme vai dar certo por isso, acho que ele olha com distanciamento, que ajuda. O importante não é tocar quem acredita, mas sim levar a mensagem a quem não conhece. Chico era um homem que tinha uma alma tão sensível que é difícil não comover. As pessoas que não acreditam em nada parecem estar atrás do muro. Não sei se o Daniel é assim com todo mundo, mas às vezes parece que ele depôs as armas dele.

Como foram as cenas com a Cássia Kiss?

Eu acho que mais do que uma briga, tem um encontro lindo. A cena do tribunal é muito forte e começa pelo fim. Começar o filme pelo fim é complicado. O Daniel entendeu que, mais do que uma briga, são duas mães se consolando. Na cena do tribunal as duas estão se consolando, pois, por mais que o menino fosse condenado, um deles estava vivo. Existe um abismo intransponível entre a vida e a morte. A Elis cantava uma canção em que ela dizia que o amor é meio ermo, mas a morte não. Este é o sentido de uma mãe consolando a outra. Se o filho está mais ou menos preso a gente vê, mas ele não pode estar mais ou menos morto.

Qual é a sua filosofia religiosa?

Acredito em Deus sobre todas as coisas. A fé, para mim, é um rochedo, um escudo e um refúgio. Não importa o nome que isso tenha, ao longo da vida as pessoas vão buscando. A gente precisa de muitos elementos, muitas alegorias de coisas externas para conectar o que há dentro. É como se precisássemos de um relógio para saber que o tempo passa. Há pessoas que têm esta observação de uma maneira natural, tem outras que não, que têm de superar várias barreiras internas.  Fui criada dentro do catolicismo, logo fui percebendo que a palavra de Cristo é incrível. Tomaria muito chope com ele na vida. Ele era um guerreiro. Ele queria que tudo melhorasse. Percebo que a palavra do Buda e de Jesus tem muitas correlações.

Letícia Sabatella, a Maria, mãe de Chico Xavier

Fale sobre sua personagem.

Maria, a mãe do Chico Xavier, é uma força feminina que estava presente na vida dele quando mais precisava. Em espírito, ensinando ele a rezar e dando a força espiritual necessária. A presença da mãe trazia uma dimensão da arte, onde o feminino dança por este menino. No filme, ela tem uma presença de fortalecer sem ter pena dele. Quando li o roteiro achei interessante o fato de ela ser uma mãe que fortalece o filho sem ter pena, mesmo sabendo que este menino é muito sofrido. Ela acredita na sua força. Não era uma mãe que trazia condolências, mas era aquela que dizia: “Vai, você consegue”. Também trazia alegria.

No roteiro, qual parte é mais marcante?

Eu gosto muito do roteiro do filme, pois ele tem humor e trata com muita dignidade a crença e a fé. Gosto muito da ideia e das leituras. O Daniel, por ser cético, ajudou muito o filme. Ao mesmo tempo, Chico falou a verdade o tempo inteiro, por isso nós aprendemos a acreditar nesta linguagem espiritual. Acho muito legal que no roteiro tenha humor.

André Dias, o Emmanuel, guia espiritual de Chico Xavier

Como você foi chamado para participar do filme?

O Daniel Filho foi assistir à estreia da minha peça de teatro e no outro dia me ligaram para marcar um teste. Eu fiquei muito confortável, achei até mesmo que fiz bem. Horas depois a assistente me ligou avisando que eu tinha sido selecionado. Eu fiquei apavorado. O personagem era importante para o filme e eu acho que, durante este processo, me encontrei em vários estados emocionais. O primeiro foi que fiquei muito apavorado com a responsabilidade de representar este personagem. Emmanuel é o guia espiritual do Chico Xavier, durante quase 70 anos de vida mediúnica. Alguém que inspirou o Chico, através da disciplina e do trabalho, a amar o próximo.

Como foi a construção deste personagem?

Tive total liberdade. Na visão do Daniel, o Emmanuel funciona como um alter-ego do Chico. Então, ele é um fator que inspira o Chico a trabalhar, a ter disciplina, mas ao mesmo tempo funciona como um alter-ego. E o Daniel foi um pai. Não tenho nem palavras. Se alguém me perguntar: “Um diretor?”, responderei: “Daniel Filho”. O cuidado, a certeza e a segurança de como fazer. A alegria de estar trabalhando e ver o trabalho. Uma escola. Uma alegria de saber que ele está seguramente realizando seu trabalho. Nunca tinha vivenciado isso.

De: Revista Cristã de Espiritismo


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