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Enfim, imortais? Como a tecnologia pode mudar a noção da morte

 

Nada de placas, lápides ou funerais tradicionais. A tecnologia veio para mudar a forma como nos relacionamos com a morte (ou com a “vida” após a morte) e, para isso, vai usar seus dados digitais. Há alguns anos ninguém precisaria se preocupar com o que aconteceria com os diversos tipos de dados que vamos deixando na internet ao longo das nossas vidas. Hoje a história é bem diferente.

Seus dados podem ser capturados e usados como matéria-prima para formação de memórias virtuais, que servem para trazer conforto aos entes queridos.

Usando arte e alta tecnologia uma empresa (The Hereafter Institute) criou uma espécie de conceito de funerária do futuro, que oferece aos clientes a possibilidade de deixar todo um legado digital. Por exemplo, é possível criar um medalhão personalizado muito mais atrativo e interativo do que os tradicionais monumentos de pedra (lápides). Usando o Facebook de pessoas que já faleceram é possível gerar um vídeo com a história dessas pessoas, tudo acompanhado de uma trilha sonora gerada exclusivamente a partir dos dados do falecido.

Para o criador dessa espécie de memória digital eterna, isso é uma forma de tornar a vida tangível outra vez (veja o vídeo seguinte). O colar é feito sob medida e exibe, de forma aleatória, clips de vídeo do falecido. Este acessório funciona como uma máquina de memória vestível (wearable). A qualidade de vídeo será diferente com base em quando a pessoa morreu: enquanto alguém que morreu recentemente pode ter vídeos capturados em alta definição, outros poderão ter armazenados imagens em menor qualidade, em formatos antigos como VHS.

E o que acha da ideia de conhecer ou mesmo relembrar os entes queridos cara a cara? Tal ideia já é viável por meio de reconstruções usando técnicas de realidade virtual. Com base em fotografias e vídeos, é possível que os membros da família cumprimentem seus entes queridos falecidos reconstruídos como personagens em 3D e ouçam gravações de áudio de pessoas contando as memórias deles. Tudo funciona da seguinte forma: depois de criado um modelo 3D do falecido, é solicitado que a sua família descreva memórias dessa pessoa, a partir das quais é gerada uma cena virtual. Neste cenário virtual você entra numa sala de espera e observa portas com nomes de pessoas. Ao olhar fixamente para um nome, este é selecionado, e a porta se abre. Do outro lado estará a pessoa falecida amada o que te propiciará um breve “encontro” virtual.

Com a ajuda da Inteligência Artificial, em 30 anos, a vida após a morte poderá se tornar realidade.
Um novo projeto chamado “Atom & Eve” está pesquisando formas para permitir que a consciência humana seja transferida após a sua morte para um corpo artificial. Esta é a meta da empresa Humai, cuja missão é reinventar a vida após a morte. Nanotecnologia, biônica e a inteligência artificial são apenas algumas das tecnologias que estão sendo utilizadas no projeto.

Segundo a empresa Humai, dentro de três décadas existe uma expectativa de que as coisas comecem a sair do papel e se tornem realidade. Usando nanotecnologia e inteligência artificial a empresa está guardando informações sobre como as pessoas falam, seus comportamentos e o processo de pensamento. Os dados coletados poderiam ser codificados para muitos sensores que alimentariam órgãos artificiais com o “cérebro” da pessoa falecida.

Uma das maiores e ambiciosas metas é permitir que o cérebro dos mortos seja congelado utilizando tecnologia criônica e quando esta tecnologia estiver totalmente desenvolvida e pronta, eles irão incorporar o órgão congelado de volta, mas em um corpo artificial que seria totalmente capaz de viver como o falecido costumava fazer.

O cérebro do falecido irá enviar ondas para o corpo como antes, o corpo real do ser humano. Além disso, como o corpo artificial não envelhece, mas o cérebro sim, a nanotecnologia será usada para reparar e melhorar as células do cérebro quanto ao envelhecimento. Segundo o CEO da empresa sua ideia não é lutar contra a morte; na verdade, o intuito é tornar a morte algo opcional.

Nesta visão tecnológica, a vida após a morte, pode depender do quanto você tweeta, bloga, posta ou envia e-mails.
Imagine a ideia de o Facebook de uma pessoa falecida continuar fazendo publicações em “nome dela”. Isso e muitas outras ideias, fazem parte de um movimento que visa a “eternidade aumentada” – que tem como objetivo usar a inteligência artificial para converter rastros digitais de uma pessoa em um chatbot com personalidade, com capacidade de responder perguntas e engajar-se num diálogo, imitando o estilo de conversação de um indivíduo.

Dr. Hossein Rahnama, do laboratório de mídia do MIT, comanda um projeto que visa tornar esta ideia futurística uma realidade construindo uma ponte entre vida e morte, por meio da eternização da nossa identidade digital. Tais ideias podem ser usadas para ressuscitar algumas personalidades já falecidas, como Tolstoy e Sigmund Freud. Toda a obra escrita destes grandes intelectuais poderia muito bem ser suficiente para criar uma personalidade baseada em inteligência artificial que imitasse o estilo de pensamento e de expressão deles.

Essa capacidade de a máquina aprender o comportamento de uma pessoa depende muito da quantidade e da profundidade da escrita produzida durante a vida do falecido.
Os algoritmos de aprendizagem que são usados para criar estes chatbots exigem uma grande quantidade de dados para conseguirem simular a dicção, preferências e manias que representam um indivíduo.

Infelizmente, os gênios da matemática e ciências que produziram pouco na forma de um registo escrito dificilmente poderiam ser digitalmente ressuscitados. Um exemplo recente do uso desse tipo de tecnologia se deu quando foi criado um chatbot baseado na personalidade do Donald Trump.

Esses chatbots poderiam ser úteis também em vida, podendo ser usados pelas pessoas para responder nossos telefonemas e responder aos nossos e-mails, por exemplo. Num cenário como esse surgem questões de privacidade e ética.

Quem é o responsável pelas produções de um ser virtual, a empresa em cujos servidores os dados residem ou o indivíduo cujos dados serviram para a geração deste ser?
E para mostrar projetos concretos nesta área, um novo site chamado Eter9 promete proporcionar aos usuários a “imortalidade digital” usando uma espécie de robô para analisar suas postagens, passando a postar na internet por você após sua morte. Se sua atividade nas redes sociais consiste em falar sobre uma personalidade qualquer e reclamar de políticos, isso significa que você pode passar a eternidade postando sobre esses assuntos.

A rede social tem uma página principal, que funciona como o feed de notícias do Facebook, e um “córtex” (sua personalidade virtual), que atua de forma parecida à de seu perfil no Facebook. Existem também alguns robôs (niners) que interagem com seu córtex, sem a interferência de humanos (o que ajuda a manter seu engajamento, mesmo após sua morte). O usuário pode configurar o serviço definindo o nível de atividade de seu robô, dando a ele a possibilidade de postar na rede enquanto o usuário estiver offline.

Um exemplo de um chatbot que modela a personalidade de uma pessoa real é o Roman. Ele foi criado pela russa Eugenia Kuyda, cujo melhor amigo (chamado Roman) morreu num acidente de carro. Lendo SMS, mensagens online e emails trocados entre os dois, ela percebeu que essas mensagens imortalizavam as expressões, opiniões e feitos diários do amigo. Daí veio a ideia de fazer algo que pudesse permitir que os dois voltassem a se falar…Para isso usou os seus conhecimentos de uma área denominada linguística computacional. Inspirada na tecnologia dos chatbots utilizou as mensagens trocadas para criar um robô virtual, que reproduzia os padrões de fala do seu amigo. Isso permitiu manter a sua memória viva, e criar um verdadeiro memorial de quem o Roman tinha sido em vida. O robô virtual permitia recordar a história de vida de Roman, usando suas próprias palavras.

O chatbot evoluiu e deu origem ao serviço Replika que tem a capacidade de aprender os padrões de linguagem do usuário, sendo também capaz de acessar as redes sociais (Facebook, Instagram e Twitter) para aprender mais sobre a história de vida da pessoa. Os algoritmos usados permitem calcular a melhor resposta para cada caso a partir de uma base de dados em constante evolução, aprimorando a experiência do diálogo.

Embora o objetivo do serviço Replika seja criar um robô virtual semelhante ao usuário para ser usado como um assistente virtual, eventualmente, em casos de morte, o programa de computador pode se transformar numa possível alternativa para consolar amigos e familiares, pois seria um versão imortal de uma pessoa.

Para muita gente, interagir com o chatbot tem um efeito terapêutico. Segundo os responsáveis pelo serviço Replika, o conteúdo das conversas é, muitas vezes, confessional. Alguns usuários, repetidas vezes, escrevem “eu gostaria que você estivesse aqui”.
O uso de redes sociais após a morte é um assunto que ganhou importância nos últimos anos, tanto que o próprio Facebook permite ao usuário apontar um “herdeiro”, ou seja, alguém que poderá administrar seu perfil após sua morte, em vez de simplesmente manter a conta “congelada” ou ser desativada.

Várias empresas oferecem serviços para atender à crescente demanda por formas de proteger o legado digital. Nesses casos a pessoa pode escolher que o acesso aos serviços sejam transferidos diretamente para os herdeiros ou que sejam encerrados. O serviço oferecido pelo site Remember Me permite que a pessoa crie mensagens (em texto, vídeo ou voz) para serem enviadas a amigos e familiares após a sua morte. Para isso ele define que pessoa poderá ativar o serviço de envio após seu falecimento.

Um outro serviço que está chamando a atenção refere-se a um aplicativo, sendo desenvolvido na Coréia do Sul, que cria selfies com avatares dos parentes mortos. Ele permite que as pessoas falem com avatares dos parentes mortos e façam selfies com eles.

Amigos e familiares são escaneados usando tecnologia 3D e tem seus avatares criados enquanto ainda estão vivos. Usando o aplicativo podem, então, tirar selfies com os entes falecidos (modelados em 3D), eternizando novos momentos com eles. A Inteligência Artificial também permite falar com os avatares. Você pode dizer “eu te amo” e ver o modelo tridimensional do seu parente responder com um “eu te amo também”.

Sobre o autor:

Patrick Pedreira é Professor Mestre em Ciência da Computação, doutorando na USP, coordenador de cursos de graduação.

Fonte: https://www.linkedin.com/pulse/enfim-imortais-como-tecnologia-pode-mudar-no%C3%A7%C3%A3o-da-morte-pedreira

 

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