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Adoção

Ela chora! Eu, não

Era um dia de inverno. O sol aquecia gostosamente nossos corpos e a sombra lembrava o quanto ainda precisamos de cuidados, todos nós.
Chegamos ao orfanato com uma felicidade, misturada com ansiedade, típica de pais de primeira viagem. Mas já era nossa terceira. Duas biológicas e agora aquela, por adoção.
O processo judicial foi relativamente curto, algo em torno de seis meses, onde tivemos reuniões com psicólogos, assistentes sociais e outros casais que tinham tomado a mesma decisão de ter filhos. Soubemos depois que a morosidade, nesses casos, se dá mais por exigência dos futuros pais, que querem crianças brancas, saudáveis, recém-nascidas. Talvez na esperança de que a adoção possa ser esquecida no futuro, talvez…
Nós, não. Só pedimos que fosse uma menina pelo fato de julgarmos que, já tendo criado duas, fosse mais fácil educar uma terceira.
– Vocês podem ir ao abrigo conhecer a criança e, se não gostarem, continuamos o processo.
Essa frase da assistente social, algo gentil, carregava em si um pouco da história da nossa humanidade, ainda engatinhando moralmente, de julgar pela aparência e descartar “o que não é espelho”, como sintetizou Caetano Veloso. Fomos com a certeza de que gostaríamos, sim. Como espíritas convictos, imaginar a possibilidade de que aquela criança pudesse ter sido escolhida por mero acaso era inaceitável.
Enquanto aguardávamos a liberação burocrática, fiquei no pátio conversando com o Paulo, um negrinho de uns 7 anos, que, pelas condições que a vida lhe impusera, aparentava a maturidade de um adulto num corpinho franzino.
– Tio, eu sei que você veio aqui buscar uma criança, mas não sou eu. Já sou muito velho e ninguém me quer mais, com toda essa idade. Minha família é só o “vô” – assim as crianças chamavam o senhor que cuidava do lugar.
Tentei ponderar que ele ainda era pequeno, que era lindo, muito esperto e que com certeza chegaria a sua vez. Pensei em dar esperanças para alguém que tinha a vida toda pela frente.
– Você vai levar aquela menina? Ih, tio, ela chora muito, faz xixi na fralda, dá um trabalhão. Eu, não! Faço tudo certinho.
Difícil lembrar dessas palavras sem sentir um aperto no coração e um esforço para conter as lágrimas que insistem em cair.
Desde aquele dia, já se passaram dez anos, e o Paulo, se não conseguiu uma família, já saiu do abrigo ou está prestes a sair, porque com 18 anos isso é lei. É a sociedade, de forma legal, abandonando mais uma vez quem já foi abandonado tantas outras.
Talvez você esteja aí pensando que não podemos mudar o mundo, o que eu sou obrigado a concordar. Mas eu poderia ter mudado o mundo do Paulo, e deixei passar a oportunidade.
Minha filhinha, hoje já adolescente, não chora mais.
O Paulo, além de continuar no meu coração, quem sabe como estará?

Créditos: Humberto

Portal Espirita L.E.M.A. – Legião Espiritual e Material de Ajuda
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