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A coxinha do Pedrinho

Sento eu 6:05h da manhã na padaria para tomar meu café da manhã e ler meus jornais do dia.

Ao levantar a cabeça, cruzo com um menino `a minha frente, sozinho, com uma tremenda coxinha no prato esperando alguém para devorá-la. Ele me olha encabulado, eu ofereço um sorriso e penso – Nossa, queria eu estar comendo aquela divina coxinha! Na sequência, a mãe do menino que estava no balcão, retorna e se senta na frente do filho. Retomo a minha leitura.
Como a padaria estava vazia, percebo que entra uma jovem, que ao se deparar com a mesma cena do garoto e sua coxinha, acena negativamente com a cabeça e solta, quase como um suspiro melancólico um “não acredito”. Impossível deixar de ouvir, e impossível não refletir por qual razão a jovem reprovaria o prato alheio.

Sigo lendo meus jornais, quando passa por mim o pedido da jovem: tapioca e suco verde.

Retomo a leitura. Antes da jovem sair, ela faz questão de reprovar novamente a mãe do garoto, soltando um “ai ai” que me faz parecer que o dia estava terminando e não se iniciando, como era o caso.

O que me deixa inquieta na cena, é a imparcialidade da mãe, que eu momento algum se ofendeu com a intromissão e reprovação daquela jovem. Como a mãe estava de costas para mim, não via nada além do convívio feliz com a criança.

Pedrinho termina a sua coxinha e diz alto – mãe, vou lavar as mãos pois não quero ficar internado de novo, e ao passar, genuinamente pisca para mim. Vejo que em seu bracinho tinha uma daquelas pulseiras que os hospitais colocam na admissão, tanto do pronto socorro quanto na internação, e então saco que o mesmo havia saído de um hospital próximo dali, e aquela estava sendo sua primeira refeição pós alta.

Ele está tão irradiante que sua estatura parece grandiosa e iluminada. Ele retorna e dá um abraço longo, entregue e comovente em sua mãe e agradece pela exceção da coxinha, e por ela ter dormido com ele. A cena é tão iluminada e comovente, que passo a acreditar que dita mãe e filho sequer perceberam a presença daquela jovem reprovadora.

Voltei meus pensamentos `aquela moça que repudiou a cena, como se entendesse tudo de nutrição, filhos ou comportamento.

Pois é, nem eu que redijo este texto tenho noção do que aconteceu. Só sei que a alegria daquele garoto comendo aquela coxinha dava gosto; e mesmo que houvessem opções nutricionais mais adequadas para o desjejum, quem somos nós para avaliarmos a vida alheia?

Recentemente um candidato disse que se eleito, iria mandar construir muros em suas divisas, e penso: e nós? Quantos muros construímos com atitudes assim?

A dica que dou para mim e replico aqui é: pense mais, construa diálogos internos e evite julgar o que não conhece nem vivencia. Nem tentando calçar o sapato do outro a gente consegue experimentar a sua dor e razão.

Um lindo e ensolarada fim de semana para todos nós!

De: Ana Luiza Alves Lima
Advogada e Consultora na Gestão de Pessoas em São Paulo – SP, Brasil. Formação: Bacharel em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Santos (UniSantos-SP); Pós-graduado em Gestão de Seguros (Fundação Getúlio Vargas – FGV-SP); Consultora do Serviço Nacional do Comércio (SENAC para cursos livres e de pós graduação) e Administração de Recursos Humanos, pelo SENAC/SP. Membro da Ordem dos Advogados do Brasil, Secção de São Paulo e da Associação dos Advogados de São Paulo.

 

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